Psicologia infantil


Uma nova realidade, uma nova forma de atuação


Há hoje inúmeros livros relacionados à psicologia da criança, os quais tentam esclarecer e informar sobre aspectos, situações e circunstâncias que descrevem o universo das crianças e indicam como os pais podem lidar com isso de forma adequada e saudável para que o desenvolvimento delas ocorra visando à evolução por si mesma, sem forçar atitudes ou queimar etapas.

Conhecer os mecanismos e a dinâmica da criança de acordo com o que é esperado para as condições de sua faixa etária é de extrema importância para que pais e educadores saibam o que é próprio de cada fase do desenvolvimento, sem deixar de levar em consideração as circunstâncias pelas quais a criança está submetida naquele momento de vida.

Longe de ser algo distante, a Psicologia hoje tenta abranger as diversas faixas etárias compreendendo as diferenças de comportamento que são típicas de determinadas idades, procurando ter uma visão mais ampla do processo de crescimento que ocorre para toda e qualquer criança.

Em linhas gerais, a Psicologia Infantil tem como foco principal o bem-estar da criança procurando identificar quais são suas necessidades básicas e essenciais para que ela possa crescer, aprender e se desenvolver.

Antes de falarmos sobre quais seriam então estas questões básicas para o crescimento da criança, vamos percorrer, através da história, e mais especificamente da arte, o surgimento da importância no que se refere à criança.

Houve no decorrer de nossa história uma mudança grande com relação ao olhar que o adulto tinha sobre quem era a criança. A arte do século XII ainda não se reportava à infância como uma fase distinta e característica, não proporcionando assim uma representação diferenciada para as crianças, negando sua morfologia infantil e mostrando-a apenas como se fora uma imagem de adulto em tamanho reduzido. Isto parece demonstrar que os homens do século X e XI não se ocupavam da imagem da infância, pois esta não era motivo de interesse e nem de retratação da realidade.

Por volta do século XIII, observam-se alguns tipos de representação de criança, através da imagem do anjo ou mesmo do Menino Jesus e, em seguida, já no século XIV, aparece a representação da criança nua. É somente nos séculos XV e XVI que surge uma representação da criança desligada do vínculo à religiosidade.

Contudo, a descoberta da infância teve seu início no século XIII e sua evolução pode ser acompanhada na história da arte dos séculos XV e XVI, sendo que sua representação tornou-se mais significativa durante o século XVII e a partir daí a criança passa a ser muito retratada.

A arte em sua representação, que vai se transformando ao longo dos séculos, mostra-se como um reflexo das mudanças de comportamento relacionadas à infância; a criança passa a ser vista e aos poucos começa a ser considerada.

Atualmente, pais, educadores e profissionais da área da saúde, se atêm de forma bastante profunda e minuciosa às necessidades infantis, baseados nos estudos e nas pesquisas mais recentes realizados por variados profissionais de diferentes áreas do conhecimento e do saber.

Quais seriam então estas necessidades básicas para o desabrochar da criança como um todo? Segundo os autores T. Berry Brazelton e Stanley I. Greenspan, são sete as necessidades básicas que propiciam a realização das capacidades emocionais, sociais e intelectuais necessárias ao bem-estar global de bebês e de crianças. São elas:
- Necessidades de relacionamentos sustentadores contínuos
- Necessidade de proteção física, segurança e regras
- Necessidade de experiências que respeitem as diferenças individuais
- Necessidade de experiências adequadas ao desenvolvimento
- Necessidade de estabelecimento de limites, organização e expectativas
- Necessidade de comunidades estáveis, amparadoras e de continuidade cultural

Vamos rapidamente entender a proposta de cada uma destas questões e, no decorrer dos temas e assuntos apresentados, vamos encetar um olhar mais detalhado para cada uma delas.

O que se entende por relacionamentos sustentadores contínuos? Deve-se considerar que a aprendizagem mais importante nos primeiros anos é concedida pela interação humana. Os relacionamentos e interações emocionais ensinam, além de outras coisas, comunicação e pensamento. No início o sistema de comunicação do bebê é não verbal; apresenta-se em forma de gestos e sinais que possuem conotações emocionais e vai evoluindo para um sistema cada vez mais complexo de resolução de problemas e interações.

Para que a criança possa criar e desenvolver seus próprios relacionamentos com outras crianças e com os adultos à sua volta aprendendo a comunicar seus sentimentos e desejos de forma adequada, ela precisa desfrutar de relacionamentos seguros, sustentadores e empáticos. Através dos relacionamentos, pode-se também orientar as crianças sobre quais comportamentos são adequados e quais não o são.

No que diz respeito à proteção física, à segurança e às regras, estes são aspectos que devem começar no nascimento e seguir por toda a infância e adolescência. Atualmente uma das mais importantes situações que constituem ameaça à proteção física da criança é a exposição às substâncias tóxicas provenientes de seus ambientes. Uma outra situação, não tão clara como essa primeira, é o impacto da TV e do computador com relação à atenção e à aprendizagem da criança. Pesquisas recentes mostram que crianças estão passando mais de cinco horas por dia na frente das telas tanto de um como de outro; alguns estudos já se iniciaram para tentar demonstrar como o tempo em que se permanece exposto afeta diretamente o sistema nervoso central por se tratar de atividades perceptivas repetitivas e passivas que se contrapõem às interações dinâmicas com outras crianças e com adultos e que parecem muito mais eficazes para a ocorrência da aprendizagem e do desenvolvimento.

Faz-se, portanto, urgente prevenir os abusos fisiológicos e tentar melhorar os ambientes familiar e físico nos quais as crianças crescem, a fim de se minimizar e até evitar fracassos em seu crescimento e desenvolvimento.

Uma terceira necessidade é a de que aceitemos as diferenças únicas das crianças e de que possamos adequar as experiências às qualidades individuais de cada uma, aumentando assim a possibilidade de ela crescer física, intelectual e emocionalmente saudável. Os pais podem observar que cada um de seus filhos é diferente e é a aceitação destas diferenças individuais que possibilita que os mesmos atuem de maneiras específicas, promovendo assim um desenvolvimento saudável em cada um de seus filhos, em vez de apenas tentar enquadrá-los e ajustá-los aos padrões esperados pela família.

Temos também as necessidades de experiências que devem ser adequadas ao desenvolvimento. Com o decorrer do crescimento, as crianças dominam diferentes estágios que fornecem a base para a inteligência, a moralidade, para a saúde emocional e habilidades acadêmicas. Para cada estágio, determinadas experiências são necessárias. À medida que a criança atinge um novo estágio, ela continua a se remeter aos tipos de interações relacionadas aos estágios anteriores.

Assim, novos tipos de interação são acrescentados aos já adquiridos, para que quando a criança chegue à idade escolar haja uma variedade de experiências fundamentais necessárias para apoiar seu desenvolvimento. Alguma destas experiências a criança passa a dominar e outras requerem um cuidado e uma prática maiores, pois elas tendem a dominar tais tarefas do desenvolvimento em ritmos muito diferentes, tanto de uma para outra, como a mesma criança em atividades diferentes. É preciso respeitar a cadência deste ritmo, pois acelerar tal processo pode acarretar uma resposta lenta e difícil.

Quanto às necessidades do estabelecimento de limites, de organização e expectativas, embora existam divergências na forma de se efetuar tais processos, há um consenso da importância destes elementos para um desenvolvimento adequado, pois a criança precisa aprender não só sobre seus próprios limites, mas também sobre a existência de um “outro” que também tem seus limites.

Deve-se tentar transmitir a disciplina com empatia e sustentação, mostrando à criança quais atitudes são adequadas e da mesma forma levá-la a perceber suas inadequações. Há de se lembrar que a chamada disciplina física, traduzida no ato de bater em uma criança, não se encaixa mais como um recurso aceitável em Educação. Disciplinar significa ensinar e nada tem a ver com punição, pois punir envolve maneiras desrespeitosas de lidar com a criança e uma de suas conseqüências é afetar negativamente sua auto-imagem. No lugar da punição, os pais devem aproveitar as oportunidades e explicar os motivos dos limites estabelecidos e as conseqüências da atitude adotada pela criança se não for contida. Disciplina é um processo demorado, que ocorre a longo prazo, e ensina a criança a controlar seus próprios impulsos.

Por último, fala-se da necessidade de comunidades e culturas que propiciem um contexto para que todas as necessidades já citadas possam ser atendidas. Este contexto deve estar presente nas várias instituições sociais que são escolhidas e freqüentadas pelas crianças e suas famílias e precisa englobar tanto o respeito pela singularidade cultural como abranger a diversidade de outras culturas. Assim é de extrema importância os pais, por exemplo, escolherem cuidadosamente a escola de seus filhos, conhecendo profundamente os princípios que a norteiam para que possam avaliar se estes condizem com sua filosofia de vida, pois assim estarão proporcionando um ambiente escolar estável e integrado à criança.

Neste site, você terá oportunidade de conhecer ou de aprofundar seus conhecimentos em diferentes temas, com diversos enfoques, que, com toda a certeza, muito auxiliarão sua prática cotidiana com as crianças. Inauguramos uma série de reflexões, todas envolvidas nesta atmosfera de respeito e consideração para com o universo infantil.

O objetivo é o de trazer informações valiosas e proporcionar questionamentos a respeito de assuntos atuais, que possam levar a uma orientação efetiva e funcional às nossas crianças, cujo crescimento necessita, hoje mais do que em qualquer outra época, de referenciais firmes que lhes tragam segurança. É isso o que elas esperam de nós. Façamos, então, com que nossa tarefa de pais e profissionais ligados à vivência do tema seja exercida com maestria e excelência.


Indicação para leitura

- ÁRIES, P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1978.
- BRAZELTON, T. Berry. As necessidades essenciais das crianças. Porto Alegre: Artmed, 2002.

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