As necessidades da criança em desenvolvimento


Vamos iniciar uma reflexão mais pormenorizada a respeito dos cuidados e necessidades essenciais das crianças. Sempre é tempo de reavaliarmos nosso papel e nossa atuação e exercermos as mudanças que possam ser necessárias no cuidado com nossas crianças.

A primeira temática reavaliatória em que vamos pensar é a necessidade de relacionamentos sustentadores contínuos, ou seja, relacionamentos que eduquem e promovam o desenvolvimento da criança.

Sabe-se que, para o bebê, o som da voz humana ajuda o aprendizado e o desenvolvimento da linguagem, assim como a troca de gestos emocionais ativa a percepção e auxilia a formação de um senso de self.

A aprendizagem mais importante nos primeiros anos é dada pela interação humana. Funções como comunicação e pensamento são aprendidas através de relacionamentos e de interações emocionais.

Primeiramente o modo de comunicação do bebê é não verbal, exteriorizado através de gestos e indícios emocionais, como sorrisos, olhares, e diferentes tipos de expressão, dentre as quais relacionamos: segurar, apontar, negociar, pegar e devolver. A partir daí, desenvolve-se um sistema complexo de resolução de problemas e de interação que permeiam toda a vida presente e futura da criança.

O que muitas vezes se esquece de levar em conta é que este sistema não verbal continua sendo o mais importante, embora já inclua símbolos e palavras. Daí a importância de relacionamentos empáticos e sustentadores que propiciem segurança à criança, para que esta possa expressar seus verdadeiros sentimentos e refletir sobre seus próprios desejos.

É também através dos relacionamentos que as crianças aprendem quais comportamentos são adequados e quais não o são.

Por volta do segundo ano de vida, padrões são construídos, bem como emoções e desejos; é quando até a própria auto-imagem da criança assume uma forma mais definida.

Os relacionamentos capacitam a criança a aprender o pensar. Através das interações, a criança passa a não só atuar, como a imaginar seus desejos vinculando-os a uma palavra. Este é o início do uso de símbolos para pensar. Resta claro, portanto, que a criança “aprende” muitas coisas por meio das interações emocionais e pode aplicar tais conhecimentos ao mundo cognitivo.

Contudo não só o pensamento é criado através das primeiras interações emocionais, mas também um senso ético e moral que permite distinguir o que é certo do que é errado. Apenas interações afetuosas podem ajudar a criança a desenvolver a capacidade de ser empático com o outro, ou seja, de compreender os sentimentos de uma outra pessoa e se importar com o que ela sente.

Assim os relacionamentos emocionais interativos são de extrema importância para o desenvolvimento de habilidades essenciais, intelectuais e sociais da criança, o que nos faz pensar sobre os tipos de ambientes e prioridades oferecidos às mesmas.

O segundo ponto que iremos explorar refere-se à necessidade de proteção física, segurança e regras. Apesar de serem estas necessidades prioritárias e básicas para com a criança, nem sempre são satisfeitas, mesmo sendo extremamente importantes. Situações, tais como: exposição pré-natal e pós-natal a substâncias tóxicas, até o estresse emocional e social, bem como o uso inadequado da TV e de jogos de computador, que acabam substituindo a interação humana, apresentam um perigo e uma ameaça à saúde e ao bem-estar da criança. Precisamos fornecer cuidados e ambientes protetores para crianças e adolescentes sem nos perdermos em atitudes superprotetoras que tentam impedir que a realidade seja enfrentada como ela é.

Algo muito atual é a quantidade e a variedade de substâncias tóxicas que fazem parte integrante da vida e que podem afetar o sistema nervoso central da criança, substâncias estas muitas vezes associadas ao câncer por atuar diretamente no sistema imunológico, enfraquecendo as defesas para o desenvolvimento de várias doenças.

O uso indiscriminado de antibióticos que, em muitas situações, são oferecidos à criança sem que esta passe por uma avaliação médica, ou mesmo a medicação que é repetida à criança por intermédio dos pais, simplesmente porque num outro momento determinado remédio foi eficaz ou numa outra semelhante situação alguém usou e se sentiu muito bem.

Há crianças que param de comparecer ao pediatra em suas consultas de rotina, pois os pais julgam que “ela cresceu e, enfim, está tão bem” e só procuram o médico quando algo vai mal. Para ilustrar, elencamos o caso de uma criança que, durante longo tempo, se queixava de uma dor de cabeça e só tardiamente foi descoberto que ela estava apresentando dificuldades para enxergar e até por isso resistia sem explicação aparente a ir para a escola.

É necessário estarmos muito atentos aos sinais que a criança aponta e prontamente lhe proporcionarmos o que ela precisa naquele momento. Prever riscos e prevenir acidentes é algo que precisa ser feito pelo adulto responsável, porém é através da orientação e conscientização da criança que se pode criar esta atitude igualmente responsável para com a vida.

Há adultos que parecem não se importar com o fato de que o fumo apresenta 4.500 substâncias tóxicas que foram catalogadas, e fumam ao lado de crianças que nem sequer ainda podem falar e reclamar do possível incômodo. Há outras que até expõem o seu desconforto e já demonstram preocupação com a saúde dos pais, mais estes continuam expondo a criança aos efeitos de sua prática nociva.

Há crianças que desde o útero materno são expostas a substâncias, tais como o álcool, o tabaco, as drogas, dentre outras, o que pode desencadear vários problemas de aprendizagem, intelectuais, emocionais e sociais, pois o contato com determinados elementos químicos pode fazer com que a criança nasça com o sistema nervoso central hiper ou hipo-reativos a sensações simples como o toque e o som. Estas crianças podem também apresentar uma maior possibilidade de ter dificuldades com processamento auditivo e com a linguagem ou mesmo com o pensamento visuo-espacial, além de dificuldades relacionadas ao planejamento e ao encadeamento motor, alterando sua capacidade de planejar e de realizar ações.

Vale ainda lembrar, nesse sentido, que ambientes vulneráveis e caóticos podem afetar o modo como o sistema nervoso da criança opera. Há crianças que desde o nascimento apresentam excelentes capacidades de se acalmar, de prestar atenção, de focalizar e de se auto-regular, porém são expostas a ambientes desorganizados e desestruturados e todas estas características positivas não encontram terreno fértil para se manterem. Em pesquisas realizadas com bebês que inicialmente demonstravam todo este aparato favorável ao crescimento e desenvolvimento, mas que pertenciam a famílias que, no momento do nascimento, estavam desorganizadas, estes já no primeiro mês mostravam-se hiper sensíveis ao som e toque e suas capacidades motoras eram insatisfatórias.

Obviamente, os fatores ambientais não são os únicos responsáveis por possíveis dificuldades que as crianças venham a apresentar, mas fazem parte de variados fatores que combinados ou não podem influenciar de forma significativa o desenvolvimento natural da criança, juntamente co-relacionados com sua predisposição genética.

Estar atentos para estas questões talvez possa ajudar na prevenção de problemas de atenção, controle do impulso, domínio da linguagem, incapacidades de aprendizagem, humores instáveis e transtornos invasivos do desenvolvimento, fatores esses que afetam aspectos como o relacionamento, a comunicação e o pensamento.

Vamos agora nos ater à necessidade de experiências que respeitem as diferenças individuais da criança. Apesar das expectativas dos pais e da sociedade como um todo com relação ao desenvolvimento que é esperado, sabe-se hoje que respeitar as características e qualidades únicas de uma criança aumenta a possibilidade de ela crescer física, intelectual e emocionalmente saudável.

É importante que haja uma certa harmonia entre o desejo de ajustar as crianças às expectativas dos adultos e de tentar adequar a atenção às suas necessidades. Com o passar do tempo, percebeu-se que os bebês apresentam diferenças físicas e características únicas, sendo alguns, por exemplo, mais sensíveis ao som e ao toque do que outros, necessitando assim de diferentes tipos de ambientes.

Há pesquisas realizadas com recém-nascidos que demonstram que estes reagem diferentemente a estímulos visuais e auditivos interessantes e se acostumam a estímulos repetitivos e sem atrativos.

As diferenças individuais observadas nos bebês constituem-se em fatores importantes do desenvolvimento saudável, assim como vários tipos de dificuldades emocionais, sociais e de aprendizagem que permeiam toda a infância e a observância e o respeito a cada uma delas levou, com o passar do tempo, os especialistas a criarem intervenções específicas que podem ser usadas como prevenção ou podem servir em tratamentos precoces.

Sabemos hoje que o que é nato na criança e o que se refere à sua criação constituem dois elementos que caminham juntos, portanto há uma maneira particular de a criança assimilar e compreender o mundo e isto constitui a sua natureza e as experiências advindas da criação podem se somar a estas e ajudar as crianças a descobrirem seus potenciais. Assim, muitas características de personalidade não se originam de uma única característica genética, mas da interação complexa de múltiplos fatores.

Mais uma vez vê-se a importância das qualidades de quem cuida da criança, pois através de cuidados que envolvem atitudes e respostas específicas por parte do cuidador podem ajudar as crianças a alterar o modo como seus sistemas nervosos operam e, conseqüentemente, suas personalidades. Vários traços importantes de personalidade, tais como: capacidade para se relacionar, empatia, confiança, intimidade emocional ou mesmo pensamento lógico e criativo são amplamente determinados pela forma como se educa a natureza da criança.

De um outro lado, a criança também orienta a resposta das pessoas que interagem com ela e assim pode-se dizer que já desde bebê ela molda o mundo do qual ela passa a fazer parte. Este movimento não pára por aí, é sempre uma via de mão dupla, ou seja, aqueles que cuidam da criança são intermediários entre a mente em desenvolvimento do bebê e o ambiente à sua volta e podem fazer esta intermediação através da linguagem e das mais variadas ações do dia-a-dia. Atitudes, como sustentação emocional, prática de atividade moduladora e capacidade de envolver-se em jogo de faz-de-conta com empatia e limites consistentes tendem a proporcionar um desenvolvimento saudável. Por outro lado, limites dados através de atitudes punitivas e hostis, negligência e inconsistência desencadeiam igualmente respostas hostis, comportamentos agressivos ou apatia, criando, assim, padrões anti-sociais.

Contudo, não são apenas os padrões parenterais que influenciam a formação e o desenvolvimento da personalidade da criança, mas todo comportamento dos adultos significativos que participam de sua vida.

Hoje a educação voltada para o reconhecimento das diferenças individuais tende a beneficiar a todas as crianças, desde as que apresentam um desenvolvimento normal até as que demonstram um grau de dificuldades mais sério.

A escolha por parte dos pais desde a escola até os diferentes profissionais e especialistas que irão lidar com a criança deve ser criteriosa e extremamente cuidadosa, levando-se em conta os referenciais e pressupostos teóricos e filosóficos que embasam suas diferentes atuações, observando se as mesmas se ajustam aos valores da própria família.

Questões para Reflexão:

- Qual tem sido a qualidade e a quantidade de tempo que tenho reservado para estar com meu filho?

- Tenho aproveitado as oportunidades para desenvolver a intimidade emocional no relacionamento familiar?

- Tenho conhecimento e informação suficientes com relação aos aspectos referentes à segurança e proteção, de acordo com a faixa etária de meu filho?

- Que olhar tenho tido para a singularidade de cada ser e para as características individuais e de que forma tenho ajudado meu filho a transformá-las em qualidades para que o resultado seja um desenvolvimento saudável?


Indicações para leitura:

Ctenas, M.L.B; Vitolo, M. R. (1999) Crescendo com Saúde. São Paulo. C2 Editora.

Sociedade Brasileira de Pediatria (2005) Crianças e Adolescentes Seguros. São Paulo. Editora PubliFolha.

Biddulph, Steve (2003) O Segredo das Crianças Felizes. São Paulo. Editora Fundamento.


Dra. Mônica Brancalion

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