As necessidades da criança em desenvolvimento II


Dando continuidade à reflexão sobre as principais necessidades das crianças, vamos nos ater sobre a necessidade de experiências adequadas ao desenvolvimento, pois ao longo deste processo a criança cresce e passa a dominar diferentes estágios e para cada um destes, certas experiências são necessárias.

Estes estágios que compõem o desenvolvimento constituem-se em fundamentos importantes para a inteligência, para as habilidades acadêmicas, para a saúde emocional e para a moral e a ética.

O aprendizado adquirido em estágios anteriores vão sendo englobados por novos estágios e ao atingir a idade escolar a criança deve dispor de uma variedade de experiências que sedimentam seu desenvolvimento.

É importante que os pais estejam atentos a quais experiências a criança já adquiriu e quais são as que necessitam de um maior cuidado e investimento.

Deve–se respeitar o ritmo com que cada criança desenvolve-se em cada estágio, pois crianças de até mesma idade podem apresentar ritmos diferentes quanto ao seu crescimento e acelerá-las pode fazer com que as mesmas se desestabilizem e não construam alicerces fortes para sustentar novas etapas de desenvolvimento.

Desta forma é extremamente importante adequar as experiências às necessidades de desenvolvimento da criança ajudando-a assim a superar possíveis dificuldades, propiciando um crescimento saudável.

Levando-se em consideração que as habilidades motoras, cognitivas, de linguagem, emocionais e sociais podem desenvolver-se em tempos diferentes, é sempre necessário observar o nível que a criança se encontra em cada uma destas áreas.

Há variadas formas de se descrever o desenvolvimento infantil e uma delas fala em seis estágios primários ou seis capacidades evolutivas funcionais, incluindo além desta mais três estágios que compõem os anos escolares. Estas funções demonstram como as capacidades mentais funcionam em conjunto para auxiliar a criança a entender e a lidar com seu mundo.

Vamos então falar sobre cada um destes estágios.

Uma das primeiras e mais essenciais capacidades de que as crianças necessitam desenvolver é estarem tranqüilas e organizadas internamente e ao mesmo tempo interessadas e envolvidas em seu ambiente. Especialmente nos dias atuais não é tarefa fácil para a criança conseguir ficar tranqüila e regulada e ao mesmo tempo atenta a um mundo que lhe oferece uma estimulação exacerbada. É função do adulto, propiciar à criança condições favoráveis para que ela possa aprender a se concentrar e se focar nas experiências e observar se há dificuldades nesta área, pois desde bebês há crianças com maior ou menor grau de dificuldades em se regular e de prestar atenção de maneira adequadas a seu mundo.

Uma outra capacidade é a de a criança poder se relacionar com as pessoas de maneira afetuosa e confiante e isto advêm de uma segurança interior que proporciona a ela se adentrar nos diversos relacionamentos tanto com os adultos como com as outras crianças.

Do contrário podem tornar-se crianças distantes, reservadas e com dificuldades em ouvir e considerar o outro à sua volta.

Por isso, desde os primeiros anos de vida, grande parte da aprendizagem acontece por meio do que elas aprendem nos relacionamentos e os conceitos cognitivos e abstratos que irão desenvolver em idades mais avançadas dependem igualmente do que foi apreendido através destas inter-relações.

A partir destas duas capacidades acima citadas constrói-se uma terceira que é a capacidade de focalizar-se nas pessoas e relacionar-se com elas antes que a comunicação propriamente dita ocorra. A isto chamamos de comunicação recíproca intencional sem palavras, pois de início as crianças comunicam-se de uma forma não-verbal.

Entre 14 e 18 meses as crianças começam a desenvolver um senso de self e já são capazes de reconhecer padrões e usá-los na solução de problemas.

Em seguida, as crianças começam a utilizar-se da capacidade de formar figuras ou imagens mentais – seus desejos, necessidades e emoções passam a tomar forma e são por elas exteriorizados. Há então a substituição de uma ação por pensamentos e idéias que são expressos em palavras para comunicarem o que querem, o que sentem, ou o que vão fazer.

Assim, novos desafios surgem e a criança passa a enfrentá-los utilizando-se de suas mente, de seu corpo e emoções exercitando-os e aprimorando suas relações. Esta nova forma de comunicação deve ocorrer antes mesmo de que a criança chegue à idade escolar para que ela possa entender o que lhe é comunicado através das palavras e também para que ela consiga se fazer entender através de uma comunicação agora também verbal.

A criança necessita também pensar com as imagens que observa e assim poder fazer associações entre diversas categorias de idéias e sentimentos e estabelecer noções de causa e efeito e é justamente esta capacidade de construir pontes entre idéias em um nível emocional que constitui a base para todo o pensamento futuro. Nesse estágio que abrange a idade de dois anos e meio e três anos a criança passa a diferenciar as experiências relacionadas a “eu” (o que está dentro de mim) e “não-eu” (o que está fora de mim) e assim começa a discernir entre fantasia e realidade.

No início dos anos escolares, a criança aprimora ainda mais suas capacidades de relacionar-se, comunicar-se, imaginar e pensar. No período que vai mais ou menos dos quatro anos e meio aos sete anos de idade, tudo o que imaginam e pensam ainda é possível, há uma enorme curiosidade sobre a vida, uma forte e confiante expressividade e um grandioso senso de admiração em relação ao mundo e à vida. Há nesta fase o surgimento de um novo tipo de relacionamento: o relacionamento triangular. A mãe e o pai não são mais substituídos um pelo outro facilmente como em estágios anteriores onde o que a criança necessitava era basicamente segurança e confiança. Dispor de três pessoas no sistema familiar propicia à criança maior flexibilidade emocional.

Por outro lado, esse período de fantasia e onipotência pode ser caracterizado por uma época de grande temor. Há dois lados para o senso de grandeza e a ampla vida de fantasia da criança e esta pode ficar com muito medo de seu próprio poder e nesta hora elas querem e buscam a proteção do papai e da mamãe.

Por volta do sétimo e oitavo ano de vida o mundo da criança se amplia e volta-se, além do convívio familiar, para as complexas relações com seu iguais e gradativamente vão se definindo como membros de um grupo e isso envolve saber se ajustar a seus colegas lidando com as diferenças de cada um e para isso elas precisam aprender a raciocinar de uma maneira mais refinada. É então através destas relações que a criança continua desenvolvendo habilidades sociais e cognitivas que serão muito valiosas para seu futuro no mundo real.

Na fase que vai mais ou menos dos 10 aos 12 anos a criança já apresenta um senso mais consistente de quem elas são, baseado em valores e objetivos significantes. Porém há uma grande ambivalência, pois há ainda desejos relacionados ao mundo infantil que confrontam com seus desejos de crescer, se tornar efetivamente um adolescente e mais tarde um adulto.

Há o desejo de transpor limites enquanto desafios de crescimento como também pode ocorrer em igual intensidade o medo de sua própria independência, ou seja há momentos em que a criança desta fase parece prescindir do mundo adulto e outras vezes ela parece quere se isolar e proteger da realidade.

Concluindo, estes estágios constituem-se em pontos importantes da jornada de desenvolvimento da criança e continuam seu processo de crescimento durante toda a adolescência, onde as relações entre os mundos interiores e exteriores são ainda mais complexas. Uma vez que estas capacidades básicas tenham sido internalizadas, com a ajuda da família, da escola e dos amigos, a criança terá a base para lidar com os desafios específicos que a vida vai aos poucos lhe apresentando. Por isso é de extrema importância que os pais estejam atentos e disponíveis para todos estes níveis de desenvolvimento e as experiências relativas a cada um deles, informando-se e conhecendo as características peculiares de cada fase podendo assim dar a ajuda adequada para que a criança possa transpor os limites do crescimento de uma forma saudável compreendendo que as dificuldades fazem parte do crescimento e que elas podem enfrentá-las com sabedoria e coragem.


Indicações para leitura:

Comte- Sponville, André (1995). Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo. Martins Fontes

Khalil Gibran, Gibran (1923). O Profeta. Rio de Janeiro. Acigi


Dra. Mônica Brancalion

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