Um médico com causa

Sem medo de polêmica, o especialista em medicina fetal defende o aborto e as pesquisas com células-tronco embrionárias


 
 
   Thomaz Rafael Gollop  
• Formado na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo em dezembro de 1971
• Mestrado e doutorado em genética médica (1978 e 1982, respectivamente) defendidos no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP)
• Livre-docência em ultra-sonografia feita na USP de Ribeirão Preto
• Diretor do Instituto de Medicina Fetal e Genética Humana de São Paulo
• Casado com Flávia Rocha Ramos, formada em comunicação social. Pai de Nicholas, 13 anos


O médico paulistano Thomaz Rafael Gollop, 57 anos, sempre esteve à frente de embates públicos nos quais se discutem os limites éticos da medicina e sua repercussão na sociedade. Sua militância começou quatro anos após concluir o curso de medicina na Santa Casa de São Paulo. Gollop se lembra com orgulho de um episódio vivenciado em 1976, em plena ditadura militar no País. Durante uma reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (entidade que fazia oposição ao governo militar e debatia grandes questões nacionais, inclusive as referentes à saúde pública), discutia-se que em pouco tempo o Brasil teria tecnologia para fazer exames capazes de identificar doenças genéticas no feto. Gollop se levantou e desafiou a platéia. “E o que faremos se for detectado um problema? Um aborto?” Os ouvintes disseram que apenas iriam detectar a doença. Era o gatilho que faltava para que o médico entrasse numa luta que já dura 30 anos. Como fundador da Sociedade Brasileira de Medicina Fetal, ele foi um dos pioneiros a batalhar para que a Justiça concedesse liminares favoráveis à interrupção da gravidez no caso de fetos anencéfalos (gerados sem cérebro). Desde 1993, ele ajuda mulheres que enfrentam o problema a conseguir a permissão legal para o aborto.

Para enfrentar temas polêmicos e discuti-los com propriedade, Gollop investiu na sua formação. Coleciona os títulos de ginecologista, obstetra e especialista em medicina fetal, além de ter feito mestrado, doutorado e livre-docência na Universidade de São Paulo. “Quem quer combater precisa ter estofo”, brinca. Talvez isso explique o motivo pelo qual ele é um dos poucos médicos a falar abertamente que o aborto (em qualquer situação) é um direito da mulher, e não do Estado ou da Igreja. E que o Congresso Nacional deveria aprovar as pesquisas com as células-tronco embrionárias (estruturas retiradas de embriões capazes de se transformar em diversos tecidos do organismo) para o tratamento de enfermidades. Com tanta experiência na área, Gollop se vê à vontade para fazer uma análise crítica das condições do sistema público de saúde brasileiro. Foi para falar sobre esse e outros temas polêmicos que ele recebeu ISTOÉ em seu consultório, em São Paulo, na mesma semana em que o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública na Justiça pedindo a liberação da pesquisa com células-tronco embrionárias extraídas de embriões produzidos a partir de fertilização in vitro, desde que com autorização dos genitores.


ISTOÉ – O sr. foi um dos pioneiros na defesa da interrupção da gravidez nos casos de fetos anencéfalos. Mas até agora essa situação não foi definida. O que emperra esse processo?

Thomaz Rafael Gollop –
Em outubro de 2004, o Supremo Tribunal Federal
cassou uma liminar, concedida em julho, que autorizava o aborto nesses
casos sem a necessidade de se recorrer à Justiça. Essa decisão atrasou ainda mais uma discussão que se estende há mais de 30 anos: o direito da mãe de interromper uma gravidez por não haver chance de vida para o filho, o que na minha opinião e na de várias entidades médicas não caracteriza o crime de aborto estabelecido no Código Penal. Um dos principais opositores que emperram a definição desse assunto é a Igreja Católica. Infelizmente, vivemos num país em que existem dificuldades em se separar a Igreja do Estado. A fé não pode invadir as questões da razão e de direito individual.

ISTOÉ – O que os defensores do direito ao aborto nesse caso pretendem fazer?

Gollop –
Em fevereiro, teremos uma audiência pública em Brasília, no Supremo Tribunal Federal. Estarão reunidos representantes de diversas entidades, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e a Sociedade Brasileira de Medicina Fetal, da qual eu sou fundador. Mas é preciso convocar a sociedade civil, principalmente as mulheres, para participar do embate. Nada mais justo do que contarmos com a participação delas para definir questões inerentes a suas vidas. A Justiça sozinha ou a Igreja Católica não têm o direito de definir o que é bom para todos. Mas não dá para mensurar quanto tempo essas discussões vão levar. No Brasil, essas questões seguem devagar. E, mesmo que não se resolva, é importante ressaltar que ninguém deixará de interromper uma gestação. Vivemos num país em que 1,5 milhão de mulheres interrompem clandestinamente a gestação por ano.

ISTOÉ – O sr. está dizendo que também é a favor do aborto quando não há risco de vida para a mãe ou o bebê?

Gollop –
Não é a penalização que impede mulher alguma de interromper uma gravidez. A única diferença é que as ricas fazem isso em clínicas com proteção e as pobres se danam e têm complicações. A maioria dos países desenvolvidos já legalizou o aborto.

ISTOÉ – O sr. defende o uso das células-tronco (capazes de cumprir a função de diversas células do organismo) no tratamento de várias enfermidades. Quais os avanços que esse recurso terapêutico representa para a medicina?

Gollop –
A possibilidade de usar células-tronco retiradas do cordão umbilical, da medula óssea ou das células-tronco embrionárias é uma grande conquista. Representa para um paciente com problemas do coração, por exemplo, a possibilidade de recuperar a função cardíaca. Mas, como todo avanço, também tem seu lado polêmico. Muitos estudos levantaram a hipótese de que as células embrionárias poderiam levar ao aparecimento de tumores. Mas não há evidência científica de que haja malefícios no uso das células-tronco.

ISTOÉ – Nessa questão, há também polêmica, que envolve as células embrionárias. Setores da sociedade, a Igreja Católica entre eles, defendem que o embrião é uma vida. E por isso não pode ser usado como fonte de onde podem ser retiradas células. Esse tipo de discussão atrasa as pesquisas?

Gollop –
Com certeza. E o problema é que o Congresso Nacional atua muito mais por pressão de lobbies e por interesses econômicos do que por conhecimento de causa. E com relação à questão das células-tronco embrionárias existe uma enorme desinformação. Os leigos acham que ao usá-las para pesquisa está-se “destruindo um bebê”. Na verdade, o que se quer usar são os embriões congelados armazenados em clínicas de reprodução humana que não seriam mais usados.

ISTOÉ – O que é feito com esses embriões?

Gollop –
Depois de um certo tempo, eles são descartados

"Não é a penalização que impede a mulher de interromper a gravidez. A diferença é que as ricas fazem isso com proteção."

ISTOÉ – O que o sr. achou da ação civil pública impetrada pelo Ministério Público Federal pedindo a liberação das pesquisas com as células-tronco embrionárias retiradas de embriões obtidos em fertilização in vitro?

Gollop –
É um grande avanço ver a Justiça voltando sua atenção também para essas questões.

ISTOÉ – Com base na sua experiência, qual a sua avaliação do Sistema de Saúde Pública no Brasil?

Gollop –
Digo que a saúde no Brasil há décadas pode ser representada por uma mulher de programa que aparece na televisão num horário eleitoral, é usada e as suas verbas são facilmente alocadas para outros fins, inclusive propagandas de governantes. Quando li a matéria sobre o caos da rede pública carioca publicada na edição de ISTOÉ há duas semanas, lembrei-me de situações parecidas durante a minha carreira. Elas acontecem na maioria dos hospitais do SUS nas regiões metropolitanas. Nós não temos um projeto de saúde decente. Outra crítica que tenho é com relação à mania dos mutirões. Mutirão do diagnóstico do câncer de mama e da detecção do tumor de colo do útero, entre outros. É uma forma não planejada, assistencialista e ineficiente de tentar distribuir o mínimo de saúde porque há um gargalo no próprio sistema. Você faz um mutirão de câncer de colo de útero e quando recebe os resultados de exames não tem para onde encaminhar as mulheres. Sem contar os problemas vivenciados pelos médicos. Seus salários estão congelados desde 1994. Como podemos imaginar que um médico mantenha um consultório decente, estude, frequente congresso ganhando em média R$ 20 por consulta (o que os convênios pagam)? Como progredir com uma medicina que paga esse valor para seus profissionais?

ISTOÉ – O sr. já presenciou cenas chocantes de falta de infra-estrutura quando prestava atendimento no SUS?

Gollop –
Várias vezes. Um dos mais extremos foi operar um paciente numa sala de cirurgia com um balde ao lado porque tinha goteira. Já operei com vazamento de água próximo a fios desencapados. São cenas absolutamente comuns. Há um descaso com a saúde. E o que é mais chocante é que a nossa memória é extremamente fraca. Nós tivemos um ministro da Saúde que passou a gestão batalhando pelo imposto do cheque para reverter o arrecadamento para as verbas da saúde (Adib Jatene, ministro do governo Fernando Henrique entre 1995 e 1996). E cadê o dinheiro? Vemos os políticos dizendo nas campanhas que vão investir em saúde, mas assim que o resultado das urnas sai ninguém mais lembra do assunto. Tenho consciência ética, cívica e política e posso provar absolutamente tudo do que eu disse. Nós vivemos numa sociedade que não privilegia o olho no olho, é politicamente desorganizada e extremamente desinformada. E, infelizmente, a classe médica não se notabiliza por uma articulação muito intensa. São raras as exceções.

ISTOÉ – Qual seria a solução?

Gollop –
Infelizmente, na minha ótica pouco muda em relação à saúde e
à educação no Brasil, independentemente do partido que esteja no poder.
Ou seja, eu não consigo ver um projeto educacional ou na área de saúde que privilegie de fato esses pontos fundamentais para o desenvolvimento de um país. Não é um ataque ao governo federal. A desconsideração com a saúde é sistêmica. Pode-se até imaginar que o problema de saúde no Brasil é de tal modo grande que não exista forma de desatar este nó. E não é verdade. É preciso olhar para a saúde dentro de um processo de desenvolvimento. E o primeiro passo é identificar quais são as suas falhas.

ISTOÉ – Quais são as principais?

Gollop –
A primeira está na formação do médico. Temos faculdades de medicina em excesso. E muitas delas sem condições de ensino. E ninguém se preocupa com a reciclagem dos profissionais. Não se pode dar um canudo para o sujeito e permitir que ele passe dez anos sem que alguém se responsabilize por sua reciclagem. Sem falar na questão dos honorários médicos. Num país onde tudo sobe, não é possível que se mantenham congelados os honorários e ainda por cima achem que isso não irá refletir na qualidade do serviço. O ministro da Saúde, os secretários municipais e estaduais precisam se reunir com as entidades médicas para traçar um projeto com objetivos claros.

"Como podemos imaginar que um médico mantenha um consultório decente e estude ganhando R$ 20 por consulta?"


ISTOÉ – Como o sr. enfrenta as críticas em relação a sua posição em assuntos polêmicos, como o uso de células-tronco embrionárias?

Gollop –
Como sempre defendi a questão do aborto, posso dizer que desde que me formei já enfrentei muitas brigas. Até porque falar de aborto no Brasil é pior do que xingar a mãe. Preocupei-me em ter um estofo intelectual para não permitir que nenhum irresponsável me confundisse com um açougueiro. E eu definitivamente não sou. Além disso, é muito mais fácil ser acomodado e simpático do que combativo. Prefiro ter os meus amigos do meu lado e os meus inimigos claramente postos à minha frente. E seguramente tenho alguns. Não conheço ninguém que adote posturas políticas claras que não ganhe oponentes. Certa vez, estava num congresso médico e me perguntaram sobre o que pensava a respeito do aborto. A pergunta foi feita por um médico extremamente religioso. Eu respondi o seguinte: quero que levante a mão aqui quem no consultório nunca teve uma paciente ou algum familiar com uma gravidez indesejada. O que vocês fizeram? Ficaram de boca fechada ou encaminharam para uma clínica de aborto e foram absolutamente coniventes com a situação? Houve um silêncio no auditório. Eu não faço nenhuma interrupção ilegal pela razão muito simples de que, embora eu não tenha nenhum bloqueio em nível ético ou moral, não afronto a lei de meu país. E isso é um conceito de cidadania. Entretanto, batalho para conseguir as liminares no Judiciário.



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